Antes de estruturar um projeto de PDI, eu procuro entender o que a ANEEL já financiou

Uma das etapas que considero mais importantes na originação de um projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação é entender o que já aconteceu antes daquela ideia chegar até nós. Quando surge uma oportunidade dentro do setor elétrico, minha primeira preocupação não é imediatamente transformar aquilo em uma proposta de PDI. Antes disso, procuro compreender o problema, investigar o contexto e, principalmente, pesquisar se desafios semelhantes já foram tratados em outros projetos.

Parece uma etapa básica, mas ela pode mudar completamente a maneira como começamos a estruturar uma iniciativa. Uma ideia pode parecer extremamente inovadora quando observada apenas dentro da realidade de uma empresa e, ao mesmo tempo, encontrar projetos semelhantes quando ampliamos a pesquisa para todo o setor. Isso não significa necessariamente abandonar a oportunidade.

Pelo contrário. Conhecer aquilo que já foi desenvolvido pode ajudar a identificar onde está a verdadeira oportunidade de inovação, quais caminhos já foram explorados, que tecnologias foram utilizadas e onde ainda existe espaço para avançar. É por isso que, durante a originação de projetos, consultar o histórico de PDI do setor elétrico passou a fazer parte do meu processo de trabalho.

A pergunta que procuro responder
O problema que estou prospectando é realmente novo ou o setor elétrico já investiu em projetos que buscaram resolver algo semelhante?

Originação de PDI não deveria começar por uma folha em branco

Quando falamos sobre originação de projetos de inovação, existe uma tendência natural de concentrar a discussão naquilo que queremos construir. Qual é a solução? Qual tecnologia podemos utilizar? Qual ICT poderia participar? Quanto será necessário investir?

Todas essas perguntas são importantes, mas acredito que existe uma etapa anterior: conhecer o território no qual estamos entrando. No contexto do PDI ANEEL, temos um histórico de projetos que pode ser utilizado como fonte de inteligência para essa análise. Em vez de olhar para essas informações apenas como um registro daquilo que já foi financiado, podemos utilizá-las como uma base para investigar movimentos tecnológicos, empresas que já trabalharam determinados temas, tipos de produtos desenvolvidos e diferentes estágios de inovação. Para mim, essa consulta funciona quase como uma etapa de reconhecimento antes de aprofundar a estruturação da proposta.

Se estou prospectando uma solução envolvendo Inteligência Artificial, armazenamento de energia, mobilidade elétrica, redes inteligentes ou qualquer outro tema, quero primeiro saber como esse assunto aparece no histórico do programa. Quero encontrar projetos relacionados, entender suas propostas e identificar se aquilo que estamos imaginando representa continuidade, evolução, aplicação diferente ou efetivamente uma nova frente de pesquisa.

Foi dessa necessidade que nasceu o painel

Foi justamente para facilitar esse trabalho que montei um painel de consulta ao portfólio de projetos de P&D ANEEL. A necessidade surgiu da prática. Consultar uma base extensa sempre foi possível, mas durante uma discussão de originação eu precisava chegar às informações de maneira mais rápida. Queria pesquisar uma palavra, combinar filtros, observar projetos relacionados e começar a formar uma visão do histórico daquele assunto sem transformar cada pesquisa em um trabalho separado de tratamento de dados.

Por isso, organizei a base em uma interface que permite navegar pelos projetos utilizando diferentes dimensões. É possível realizar busca livre e combinar informações como período de cadastro, situação, segmento, fase da inovação, tema, tipo de produto, empresa proponente, chamada de P&D estratégico e faixas de investimento. Além da pesquisa dos projetos individualmente, incluí visualizações que ajudam a observar a evolução das propostas e sua distribuição ao longo das fases de maturidade.

O objetivo não é substituir uma análise aprofundada de anterioridade, literatura, propriedade intelectual ou estado da arte. O painel funciona em uma etapa anterior, ajudando a descobrir rapidamente onde vale a pena aprofundar a investigação.

Na prática
Antes de gastar tempo defendendo que uma ideia é inovadora, vale gastar algum tempo descobrindo o que o próprio setor já tentou fazer sobre aquele problema.

Encontrar um projeto parecido não significa que a nova ideia perdeu valor

Esse talvez seja um dos pontos mais importantes dessa análise. Encontrar um projeto semelhante não deveria ser interpretado automaticamente como um impeditivo para uma nova iniciativa. Inovação não acontece apenas quando ninguém nunca tentou resolver determinado problema. Um projeto anterior pode ter utilizado outra tecnologia, trabalhado com uma arquitetura diferente, encontrado limitações que hoje deixaram de existir ou simplesmente ter sido desenvolvido em um contexto no qual determinada solução ainda não possuía maturidade suficiente.

O próprio avanço da Inteligência Artificial nos últimos anos é um bom exemplo. Um problema pesquisado anteriormente pode ganhar possibilidades completamente novas com modelos generativos, arquiteturas multiagentes, novas capacidades computacionais ou maior disponibilidade de dados. Por isso, quando encontro iniciativas relacionadas ao que estou prospectando, minha pergunta seguinte não é “então não podemos fazer”. Minha pergunta passa a ser “o que mudou desde então?”.

É justamente nessa diferença que muitas vezes começa a aparecer a contribuição real de uma nova proposta. O histórico ajuda a qualificar o questionamento e evita que a discussão sobre inovação fique baseada apenas na percepção das pessoas envolvidas.

A base também ajuda a enxergar movimentos do setor elétrico

Quando deixamos de pesquisar apenas um projeto e começamos a observar o conjunto, a base passa a revelar outras informações interessantes. Podemos analisar quais temas aparecem com maior frequência, como determinadas tecnologias evoluíram ao longo dos anos, quais empresas aparecem associadas a determinados tipos de projetos e como os investimentos se distribuem entre diferentes frentes.

Essa leitura é importante porque originação de PDI não deveria acontecer isolada da transformação que está ocorrendo no setor elétrico. Uma boa oportunidade nasce de um problema real da empresa, mas também precisa dialogar com mudanças tecnológicas, regulatórias e de mercado. Observar o histórico não nos diz automaticamente qual projeto devemos desenvolver, mas ajuda a formular perguntas melhores. Por que determinado tema passou a receber mais atenção?

Existem assuntos que tiveram muitos projetos no passado e hoje aparecem com menor frequência? Uma tecnologia está deixando a fase de pesquisa e caminhando para aplicações mais próximas do mercado? Existe concentração de projetos em determinados tipos de produto? Quando transformamos uma base histórica em perguntas como essas, os dados deixam de servir apenas para consulta e começam a apoiar inteligência para inovação.

Dados ajudam a melhorar a conversa antes mesmo de existir um projeto

Tenho defendido cada vez mais que a qualidade de um projeto começa muito antes da escrita da proposta. Ela começa na qualidade das perguntas feitas durante a originação. Quando alguém apresenta um problema, podemos imediatamente reunir uma equipe e começar a desenhar uma solução ou podemos primeiro investigar o ambiente em torno daquela oportunidade. O que já existe? Quem já tentou resolver? Que abordagens foram utilizadas? O que mudou tecnologicamente? Qual é a lacuna que ainda permanece?

Existe espaço para pesquisa ou estamos diante de uma solução já disponível no mercado? Essas perguntas ajudam inclusive a evitar que PDI seja utilizado para tratar problemas que poderiam ser resolvidos por aquisição ou contratação convencional. Para mim, ferramentas de consulta como esse painel têm valor justamente porque reduzem a distância entre uma ideia e as informações necessárias para questioná-la.

Elas não tomam a decisão sobre a relevância de um projeto, mas colocam dados na mesa antes que a organização invista energia demais em uma hipótese que ainda não foi confrontada com o histórico do setor.

Uma boa originação não começa tentando provar que a ideia é boa. Começa tentando descobrir tudo aquilo que pode demonstrar que ainda não entendemos suficientemente o problema.

Um ponto de partida para quem trabalha com PDI ANEEL

Decidi deixar o painel disponível publicamente porque acredito que ele pode ajudar outras pessoas que também trabalham com inovação no setor elétrico. A proposta é simples: oferecer um ponto de partida mais prático para pesquisar o portfólio histórico de projetos e transformar uma base pública em uma ferramenta que possa ser utilizada durante discussões de originação, prospecção e estruturação de novas iniciativas. Quem estiver avaliando uma oportunidade pode pesquisar termos relacionados ao problema, aplicar filtros, explorar projetos e utilizar os resultados para aprofundar sua investigação.

Naturalmente, encontrar ou não encontrar um projeto no painel não é suficiente para determinar novidade, originalidade ou enquadramento regulatório de uma proposta. Esse trabalho exige outras análises. Mas acredito que existe muito valor em começar uma discussão conhecendo aquilo que já está disponível. Quanto mais informação conseguimos trazer para as primeiras etapas, melhores tendem a ser as perguntas que levamos para especialistas, ICTs, áreas de negócio e demais participantes do projeto.

Ferramenta aberta
Consulte o portfólio de projetos de P&D ANEEL e utilize a base como apoio na originação de novas iniciativas para o setor elétrico.

Acessar o Painel de Projetos de P&D ANEEL

No fim, o painel nasceu de uma necessidade que encontro no meu próprio trabalho: quando surge uma nova oportunidade, quero conseguir olhar rapidamente para trás antes de decidir qual caminho seguir para frente. Em inovação, conhecer o que já foi feito não reduz o espaço para novas ideias. Na maioria das vezes, faz exatamente o contrário. Ajuda a encontrar com mais clareza onde ainda existe um problema relevante, qual conhecimento precisa avançar e onde um novo projeto pode realmente acrescentar alguma coisa ao setor.

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